Senado arquiva denúncias contra Marconi e é criticado por corporativismo

Representação apresentada pelo PSOL contra o senador Marconi Perillo é rejeitada no Senado “em tempo recorde”. Diante das críticas, o presidente da Casa decidiu mudar as normas e transferir ao Conselho a competência para aceitar ou recusar denúncias. A justificativa da decisão (pg.8 e 9) e mudança imediata nas normas retratam a luta de Garibaldi Alves para proteger a imagem do Congresso, acusado de corporativismo.

O arquivamento imediato do processo de Marconi Perillo – nas palavras da Folha de São Paulo: “em tempo recorde” – exigiu um esforço extra do presidente do Senado, Garibaldi Alves, para explicar as razões. Sua primeira declaração reiterava a impressão natural diante de um arquivamento decidido às pressas: ““Não podemos de maneira nenhuma aceitar denúncias desse tipo. Não podemos admitir que qualquer representação exponha o Senado e seus representantes”, declarou Garibaldi. A declaração gerou críticas da imprensa e de outros membros do Congresso, com reação imediata do PSOL: “É mais uma atitude arbitrária da Mesa, que retrata a continuidade do espírito corporativo”.

Motivado pela repercussão desfavorável, Garibaldi declarou que as normas para avaliação de representações estavam alteradas a partir daquele dia: “Essa representação contra o senador Marconi Perillo foi a última recebida desta maneira. A partir de agora, o Conselho de Ética é que vai decidir se a representação deve ser admitida ou não”.

Até a tarde da última quinta-feira, as representações encaminhadas ao Conselho de Ética dependiam de aprovação da Mesa do Senado. Com a mudança, a decisão passa a ser do próprio Conselho.

Critérios para a decisão

Interrogado pela imprensa sobre os motivos que levaram ao arquivamento da representação, Garibaldi Alves justificou: “Eu não posso reunir a Mesa e pedir que se pronuncie. O PSOL é que deveria ter feito uma representação mais consistente”. Quanto à “consistência” do material, ele afirmou que a denúncia foi formulada apresentando somente “recortes de jornais”.

Os “recortes de jornais”, no entanto, se referiam a uma denúncia já oferecida pelo procurador-geral da República contra Marconi Perillo por formação de quadrilha, caixa dois, utilização de notas frias e tráfico de influências, uma informação amplamente divulgada pelos grandes veículos da imprensa nacional, já de conhecimento de todos os julgadores.

O Jornal de Goiás teve acesso à denúncia protocolada pelo procurador, na íntegra, onde se pode constatar que o valor declarado por Marconi Perillo em sua prestação de contas fez de sua campanha – de acordo com comissão do Congresso – a mais cara do Centro Oeste e terceira maior no ranking do país. Os gastos declarados de 3,5 milhões de reais não passam de uma fachada para ocultar somas ainda maiores, de origens obscuras, sendo impossível calcular o valor real investido na campanha que o elegeu ao Senado em 2006. Só o que se sabe é que uma verdadeira fortuna pode ter escoado dos cofres do Estado para elegê-lo a um dos mais altos postos do poder nacional, o que talvez possa colaborar na compreensão do endividamento absoluto do Estado, incapaz de honrar seus compromissos após a eleição, ainda hoje operando com déficit.

O documento elaborado pela procuradoria apresenta ainda uma informação relevante: “Os elementos trazidos aos autos contém indícios da prática de outros delitos não relacionados às eleições de 2006 e que, por isso, não foram investigados.” Um desses delitos diz respeito à irregularidades na AGETOP – Agência Goiana de Transportes e Obras. As investigações dos pontos mensionados começam a ser realizadas pelo procurador, e ainda não se sabe o volume de denúncias que poderão advir dos cinco CDs de gravações de conversas interceptadas através dos grampos da Polícia Federal. Todos estes indícios poderiam ser averiguados pelo Conselho de Ética do Senado, bastando para isso aceitar a representação e pedir vistas aos processos. Mas o Senado preferiu se abster.

Outra justificativa apresentada foi a nova regra que prevê acatamento de denúncias apenas por atos praticados após a posse do senador, o que fez um senador questionar se Fernandinho Beira Mar não seria investigado por seus atos anteriores caso assumisse uma cadeira no Senado, evidenciando a fragilidade da norma. Mesmo assim, as denúncias de tráfico de influências, comprovadas através de conversa telefônica interceptada entre Marconi Perillo e a desembargadora Beatriz Figueiredo Franco (atual presidente do TRE) em dezembro de 2006, são posteriores à eleição de Marconi Perillo ao Senado, apesar de anterior à posse, o que poderia ser considerado como uma abertura para análise das denúncias. Tal recurso já liberou de investigações pelo Conselho de Ética figuras conhecidas dos brasileiros, como Gim Argello e Edson Lobão Filho. A Mesa do Congresso evitou ainda que duas representações contra Renan Calheiros chegasse ao Conselho de Ética.

Desqualificando as eleições

Como saber qual seria o candidato vencedor nas eleições de 2006, caso os candidatos estivessem em pé de igualdade para concorrer? Marconi Perillo é acusado de contar com funcionários do Estado para trabalhar nos comitês e atuar nas equipes de segurança. Os demais candidatos, no entanto, dependiam de recursos para tais contratações. A denúncia de uso do avião do Estado em suas vigens de campanha colocou Marconi num número de palanques infinitamente superior aos de seus concorrentes, dada a facilidade de locomoção a custo zero.

Não há candidato em Goiás que consiga reunir 3 milhões de reais para uma campanha política. Marconi Perillo declarou 3,5 milhões com indicações de que os gastos reais superam em muito esse valor.

A cassassão de mandatos praticamente inexiste no Brasil, graças aos inúmeros recursos existentes para protelar processos no STF que, muitas vezes, chegam a prescrever sem serem julgados. Esta é a razão para a existência de julgamentos dentro do próprio Senado, que tem poderes para cassar o mandato por quebra de decoro parlamentar. Porém, a Casa preferiu se abster e proteger seu integrante.

Alegação de Inocência

Marconi se declarou totalmente inocente das acusações e insinua ser vítima de perseguição, um recurso utilizado por dez entre cada dez políticos investigados. “Essa tática de defesa é muito comum”, declarou Tuma em entrevista sobre os “inocentes” do Congresso.

Como complemento a sua defesa, Marconi Perillo forneceu o argumento de nunca haver sido condenado em qualquer processo. No entanto, a conversa com a desembargadora, reproduzida na última edição, pode indicar as razões de nenhuma investigação ou processo caminhar quando se trata de questões que envolvem o ex-governador e atual senador por Goiás. As transações financeiras entre o governo de Goiás e Marcos Valério, por exemplo, nunca foram apuradas, apesar do escândalo do mensalão haver revelado os esquemas que envolviam a agência de propaganda SMP&B, assim como o rombo da Celg e as várias denúncias de crime de campanha desconsideradas pelo TRE de Goiás, levando o Ministério Público a relatar constantemente o cerceamento arbitrário das investigações. O promotor Fernando Krebs concedeu em entrevista a seguinte declaração sobre a realidade de Goiás: “A CELG está quebrada, devendo quase R$ 5 bilhões e tendo que ser socorrida pelo Governo Federal através do BNDES. Temos também a SANEAGO devendo quase R$ 1 bilhão, temos o Estado, segundo o próprio Secretário da Fazenda, com déficit de cerca de R$ 50 milhões por mês e com a maior dívida proporcional entre todos os Estados do Brasil, as rodovias no Estado estão acabadas, escolas caindo aos pedaços, a Saúde é uma calamidade, é um caso de polícia! Mas nada acontece com os causadores desse estrago. Nós queremos apurar e queremos que isso venha à tona. A sociedade tem que saber quem foi que gastou mal o dinheiro, como, por que e quem se enriqueceu com ele”. Mas as ações se encerram tão logo são transferidas às mãos juízes e desembargadores locais.

Outra alegação do Senador vem do fato de não ter sido ouvido pelo procurador antes de formalizar as denúncias. Marconi poderá se manifestar durante o inquérito, já que o teor das gravações e os resultados das investigações, como se pode ver, dispensam questionamentos preliminares.

Mesmo que o PSOL não consiga denunciar Marconi Perillo ao Conselho de Ética do Senado, o STF prossegue com a apuração dos fatos. Só resta saber quando haverá uma decisão do Tribunal máximo de um país também conhecido como a terra da impunidade.

TRANSCRIÇÕES DA DENÚNCIA AJUIZADA PELA PROCURADORIA

VALORES APLICADOS NA CAMPANHA SEM ORIGEM CONHECIDA E NÃO DECLARADOS NA PRESTAÇÃO DE CONTAS.

WALDETE: AFRANIO eu tô lançando uns documentos aqui sabe, na prestação de contas do chefão (MARCONI), e eu to verificando todos os contratos de carro e carro de som… Tá assim ó, Parágrafo Único: O veículo objeto desta locação ficara a disposição do candidato MARCONI PERILLO vinte e quatro horas por dia, o qual será utilizado para campanha eleitoral de 2006.”
AFRANIO: Nossa! Tem que refazer isso ai tudo.
WALDETE: Pois é, e não teve sequer uma doação.
AFRANIO: Não, tem que fazer isso ai, senão atrapalha MARCONI. Você chama a CAROL aí… É muita coisa?
WALDETE: É tudo, praticamente todos os contratos.
AFRANIO: São quantos?
WALDETE: Hunf! Nem me pergunte.
AFRANIO: Nossa Senhora! Como é que MARCONI não declarou carro de som? É um dos fundamentos…

WALDETE: Faz esse favor pra mim, porque eu fiz umas besteiras ontem. E eu tenho que consertar isto o mais rápido possível.
TOLEDO: Tá, eu vou falar com o JAIR…sessenta mil reais.

WALDETE: Deixa eu falar com o senhor. Eu tô tendo dificuldades para conseguir aquele documento.
LÚCIO: Hum.
VALDETE: Mas me ocorreu uma idéia, vamos ver se o senhor concorda. É o REINALDO, ele tem um saldo devedor contábil Lá no diretório.
LÙCIO: Hum…
WALDETE: Eu não poderia…desfazer pra ele e ele…?
LÙCIO: Uai… eu não sei como é a confiabilidade né?
WALDETE: Pois é, foi por isso que eu liguei.
LÚCIO: Vamos pensar mais um pouco. Continua pensando por enquanto… até eu pegar uma luz com o chefe.
WALDETE: Tá. Porque aí não precisa nem nota entendeu? Só recibo.
LÚCIO: Tá certo. Então ta bom. Eu vou ver se eu falo com ele hoje ou amanhã, aí ele me da uma luz que eu não quero assumir isso sozinho não.

(Lúcio trabalhava na campanha de Marconi Perillo)

OCULTAÇÃO DE PROVAS

WALDETE: Tá. E o restante, aqueles outros que tavam lá, tão comigo viu?
LÚCIO: É NE? Você acha que do nosso lado não tem problema não né?
WALDETE: Não. Não sei não.
LÚCIO: Porque só levaram computador!?
WALDETE: Não, levaram a documentação toda e os computadores.
LÚCIO: Tá certo, deixa bem guardado, hein? Não tinha nenhum papel, nenhum rascunho, nada La não, que eles pegaram?
WALDETE: Não Dr. LÚCIO, não tinha nada assim que comprometesse, a não ser assim por muita falta de sorte.
LÚCIO: Pois é, mas se tiver papel, rascunho, essas coisas né… Você não lembra não né? Eles cataram tudo?
WALDETE: Tudo.

WALDETE: FLÁVIA, lá na 83 não tem assim documentos, não tem nada nos computadores Lá não, Né?
FLÁVIA: No computador, deixa eu ver aqui no da ANA PAULA. No meu não tem porque eu passo tudo em disquete, né.
WALDETE: Você tá ai, né?
FLÁVIA: Estou… o Dr. LÚCIO ligou agora e disse pra tirar tudo. Tá tudo nas caixas.
WALDETE: Pois é, A policia já foi La e T-9.
FLÁVIA: Pois é, que é que e isso, hein?
WALDETE: Só Deus sabe. Eu estou me sentindo a própria bandida. Não posso ir em lugar nenhum, sair da minha casa, não posso fazer nada.
FLÁVIA: Nossa, que horror hein!

(Alguns documentos comprometedores foram levados para a casa de Waldete, e segundo o procurador, outros para a casa de Marconi Perillo.

USO DE FUNCIONÁRIOS DO ESTADO

“AGDA fala com a Glória que a POLÍCIA FEDERAL, está lá no ESCRITÓRIO DO COMITÊ FINANCEIRO; que ela não sabe se a PF vai até onde ela está (Comitê Marconi). AGDA diz que ligou para Galdi e que ele disse para todos saírem do comitê pois são comissionados estáveis, são do Estado e não podem ficar lá. Glória fala para eles saírem do comitê e para levar os computadores. AGDA diz que a WALDETE ligou desesperada pois PF pegou a prestação financeira do Marconi que estava com ela.”

“Curiosidades”:Cícero Lucena (PSDB-PB)
Inquérito 2527 – Crime contra a administração pública, desvio de verbas, organização criminosa.
Inquérito 2535 – Crime contra a administração pública, licitação pública, irregularidade.

Fernando Collor (PTB-AL)
Inquérito 2468 – Crime contra a administração pública, corrupção passiva e peculato.
Ação Penal 451 – Crime contra a ordem tributária, imposto de renda, falta de recolhimento.

Flexa Ribeiro (PSDB-PA)
Inquérito 2266 – Não informado.

João Ribeiro (PR-TO)
Ação Penal 399 – Crime contra a administração pública, peculato.
Inquérito 2274 – Crime contra a ordem tributária.
Inquérito 2131 – Crime contra a liberdade pessoal, redução à condição análoga de escravo.

Leomar Quintanilha (PMDB-TO)
Inquérito 2274 – Crime contra a ordem tributária.

Lúcia Vânia (PSDB-GO)
Inquérito 2099 – Crime contra a administração pública, peculato.

Mão Santa (PMDB-PI)
Inquérito 2449 – Crime contra a administração pública. Peculato.

Marconi Perillo (PSDB-GO)
Inquérito 2504 – Crime contra a administração pública, licitação pública, irregularidade.
Inquérito 2481 – Crime contra a administração pública, corrupção ativa e passiva.
Inquérito 2562 – Crime de imprensa, calúnia.

O STF abriu inquérito este mês sobre denúncia de pedido de propina de 20% do valor para viabilizar recursos para a construção de uma escola. As denúncias de uso de caixa 2 e de recursos públicos em campanha foi ajuizado. Ligações com a Gautama e tráfico de influência permanecem em fase de investigação.

As investigações sobre ligações com a Gautama estão em análise e Mário Couto (PSDB-PA)
Ação Penal 440 – Crime eleitoral.
Inquérito 2539 – Crime eleitoral.

Neuto de Conto (PMDB-SC)
Ação Penal 429 – Crime contra o sistema financeiro nacional.

Romero Jucá (PMDB-RR)

Inquérito 2116 – Crime de responsabilidade, desvio de recursos em prefeitura. Tramita em segredo de justiça.

Valdir Raupp (PMDB-RO)
Ação Penal 383 – Crime contra o sistema financeiro.
Inquérito 1990 – Tramita em segredo de justiça.
Inquérito 2027 – Crime contra o sistema financeiro nacional.
Inquérito 2442 – Crime contra a administração pública. Desvio de verbas.

Wellington Salgado de Oliveira (PMDB-MG)
Inquérito 2310 – Não informado.

De O Jornal de Goiás

4 Respostas

  1. uai, até que Goiás não anda mal na fita. Mas o Marconi, hem? Se superou!

  2. Nunca existiu no estado de Goiás, nehum político com tanta infuência, tanto na mídia local quanto em qualquer área jurídica do estado, como Marconi Perillo. Esse sim manda e desmanda! Muitos e muitos ecândalos foram escondidos, engavetados,e até arquivados muitas vezes sem o julgamento de mérito. Um desses engavetamentos ou arquivamentos, foi o caso: “CELG/UNI-RIO”, arquivado por “Ivana Farina” do Ministério Público Estadual (MPE)… essa inclusive, foi colocada lá no MPE estratégicamente por indicação do então governador Marconi.
    Nunca a imprensa goiana lucrou tanto como nesse período (1999 a 2006). Foram milhóes e milhões de reais gastos com publicidades. À PESO DE OURO, a imprensa goiana foi alimentada para denegrir a ima gem dos adversarios políticos, e ao mesmo tempo, enaltecer, elogiar, endeusar e engrandecer a imagem deste coronel Marconi Perigo!
    Quem não se lembra das propagandas da CELG? Em qualquer canal de TV e rádio, em qualquer horário do dia ou da noite, em todo intervalo, tinha uma propaganda da CELG! Cotas milionárias de publicidade. Pra que tanto dinheiro jogado fora, se somos obrigados a consumir energia somente da CELG?! não existe concorrência! Isso sim foi uma péssima administração Pública.
    Atualmente, descobriu-se, que a dívida ou endividamento, contraído no governo MARCONI, é maior que toda dívida que o estado coseguiu contraír em mais de 200 anos de existência. Todavia, o atual Governo (Alcides), não permite tal divulgação, e, tampouco cosegue governar ou até cumprir 5% de suas promessas de campaha, pois, tamanho é o endividamento do estado!!!

  3. 1. Marconi Perigo é um dos piores coronéis da política dos últimos tempos. Sua influência ($) em todas as esferas do estado de Goiás é algo muito preocupante!
    As gravações começaram a ser feitas em 2006, na operação Voto, da Polícia Federal, que investigava crimes eleitorais. O alvo inicial não era Marconi Perillo, mas algumas conversas interceptadas levaram os investigadores à conclusão de que havia um esquema de captação ilícita de recursos, uso de notas frias e laranjas, caixa dois e outras ações que configuram fraude eleitoral na campanha de 2006. As interceptações revelam claramente os esforços dos funcionários do então candidato ao Senado na ocultação de provas que poderiam incriminá-lo e a Alcides Rodrigues, o que levou a polícia a investigar mais detalhadamente o caso, obtendo autorização para grampear o celular de Marconi Perillo.
    Com as novas acusações, apesar das incontestáveis evidências apresentadas nas conversas gravadas, a comprovação do peso da influência de Marconi Perillo sobre as decisões da desembargadora pode ser confirmada através de outras sentenças que causam estranheza no meio jurídico, em razão dos duvidosos critérios utilizados para norteá-las:
    Favorecimento a municípios
    A conversa interceptada pela Polícia Federal diz respeito à destinação do fundo de participação dos municípios, com favorecimento ao prefeito José Gomes de Itumbiara, cujos repasses extras ultrapassam R$ 30 milhões, com sérios prejuízos aos demais municípios. Em 2002, Itumbiara requereu um suposto valor residual da transferência de cotas do ICM para o município. Diante da anuência do governo, que começou a efetuar transferências mensais de milhões de reais para Itumbiara, outros prefeitos se indignaram e pediram suspensão dos pagamentos na justiça. Na ocasião do julgamento, José Gomes era membro do PMDB e estava sendo cortejado por Marconi Perillo para compor sua base aliada. Hoje, José Gomes está filiado ao PP de Alcides Rodrigues. Outros municípios pleitearam o mesmo recurso, cujas aprovações se transformaram numa valiosa moeda de troca por apoio político no Estado, com denúncias de corrupção e benefício indevido a advogados que conseguem aprovação do recurso. O advogado Thiago Vinicius Vieira Miranda, que representou os municípios de Goianésia, Luziânia e Minaçu em caso similar, vê na denúncia atual uma confirmação de suas suspeitas: “Tinha certeza que acontecia e agora temos a prova. Como é que você acha que o Zé Gomes conseguiu dinheiro para bancar um time de futebol que custou quase R$ 5 milhões para ser campeão goiano?”, questiona o tributarista.
    Desembargadora restitui cargo a prefeito acusado de corrupção
    Em fevereiro de 2006, uma operação da Polícia Federal organizou um flagrante na chácara do prefeito de Águas Lindas, José Pereira Soares, onde foram encontradas diversas máquinas da Prefeitura e 100 mil reais em dinheiro. O município, emancipado de Santo Antônio do Descoberto, faz limite com o Distrito Federal e possui um dos menores índices de desenvolvimento do Centro Oeste, sem água tratada, esgoto ou hospital. Antes que a operação terminasse, o prefeito já estava em Goiânia, almoçando com o então governador Marconi Perillo, deixando um funcionário da prefeitura encarregado de acompanhar a batida policial em sua propriedade. Coincidentemente, foi a desembargadora Beatriz Figueiredo Franco quem garantiu o mandato de mais este aliado político do ex-governador, negando recurso do Ministério público que contestou a decisão do Tribunal de Justiça de Goiás reconduzindo-o ao cargo 48 horas após ser decretado seu afastamento, em dezembro de 2005, por uma acusação de desvio de R$ 3 milhões de recursos prioritários para o município, como a merenda escolar.
    O prefeito José Pereira Soares conseguiu amealhar 11 inquéritos civis públicos e cinco ações por improbidade administrativa em menos de um ano de mandato. Apenas em um contrato, onde foram usadas notas fiscais frias, o desvio foi de meio milhão de reais. A desembargadora, na ocasião, justificou sua decisão com o argumento de que o tempo que ele permaneceria afastado do cargo não poderia ser restituído, caso ficasse comprovada sua inocência nas diversas acusações.
    Graças aos companheiros que angariou em suas lides políticas, José Pereira pleiteia o direito de candidatar-se à reeleição, enquanto o jornal Correio Brasiliense alerta para o rápido enriquecimento do prefeito, descrevendo a chácara onde reside como um oásis em meio à miséria: “A propriedade rosa a perder de vista, uma criação de avestruz, a piscina, o salão de festas, de jogos, três dezenas de manilhas no quintal de casa são apenas alguns dos indícios de que nos últimos tempos a vida melhorou para o prefeito do município. Antes de tornar-se o comandante do Executivo, os vizinhos de Pereira atestam que ele levava uma vida modesta. Morava na mesma propriedade, mas em uma casa sem reboco, cujo acesso se dava por uma estrada de terra. Hoje, qualquer uma das quatro pistas que beiram a mansão estão asfaltadas.”
    COMO FUNCIONAM AS DECISÕES NO TRE DE GOIÁS:
    Uma decisão que causou espanto no meio jurídico foi a extinção de um processo sem julgamento do mérito por parte da desembargadora Beatriz Figueiredo Franco. O caso diz respeito à mudança de partido de um vereador de Sanclerlândia (GO) que, depois de eleito, decidiu deixar o DEM e filiar-se ao PSDB, partido de Marconi Perillo, sem motivo aparente. Com a atual definição emitida pelo STF de que o cargo pertence ao partido, o DEM protocolou o pedido da vaga na câmara, ocupada pelo vereador. A extinção do processo foi decretada no começo deste ano, depois de várias sentenças, amplamente divulgadas de perdas de mandatos pelo mesmo motivo. A decisão foi justificada pela desembargadora com o argumento de que os diretórios não possuem legitimidade para requerer perda de mandato, garantindo permanência do vereador na função, agora nos quadros do PSDB. No entanto, o DEM recorreu ao TSE contra a decisão, que reafirmou a atribuição do TRE e a desembargadora retrocedeu, reconhecendo a legitimidade do pedido formulado pelo DEM e abrindo consulta ao vereador e ao PSDB.
    Relações entre magistrados e executivo
    A desembargadora Beatriz Figueiredo julgou um caso envolvendo o ex-presidente do Tribunal de Justiça Charife Oscar Abrão. Em 2004, ainda na presidência e gestão dos recursos do Tribunal, o desembargador Charife Abrão aplicou mais de R$ 77 milhões do Fundo Especial de reaparelhamento e Modernização do Poder Judiciário no Banco Santos, que foi liquidado pelo Banco Central logo em seguida. O Banco não constava da lista de instituições aptas a receber a aplicação de tais recursos, levando o Ministério Público a propor ação de improbidade administrativa com bloqueio de bens e quebra do sigilo fiscal do desembargador. Um recurso julgado pela desembargadora Beatriz Figueiredo liberou os bens e restringiu a quebra do sigilo apenas aos dados fornecidos pela Receita Federal do imposto de renda referente a 2004.
    Sem desconsiderar a possibilidade de tratar-se de mera coincidência ou obras do acaso, o fato é que, segundo o Ministério Público, um recurso semelhante em favor de José Paulo Loureiro, ex-presidente da CELG e braço-direito de Marconi Perillo enquanto governador do Estado, foi julgado pelo Desembargador Charife Abrão, que decidiu pela liberação dos bens do requerente com tal celeridade que o despacho chegou a ser feito num domingo, quando não havia expediente nem plantão no Tribunal de Justiça.
    São muitos os acontecimentos insólitos envolvendo o judiciário em Goiás. Ainda de acordo com a afirmação de promotores, sem que tenha havido provocação das partes, o juiz Otanei Francisco Campos determinou o trancamento da investigação do caso CELG pelo Ministério Público; em outra ocasião, a juíza eleitoral Elizabeth Maria da Silva determinou a apreensão do jornal O Estado de Goiás que publicou matéria desfavorável a Marconi Perillo e centenas de denúncias são bloqueadas pelo judiciário num Estado onde a corrupção e o enriquecimento de políticos é claro e notório. O judiciário em Goiás, vem se especializando em servir de parede às ações do Ministério Público no combate à corrupção e ao crime político. Do outro lado, temos em Goiás uma equipe de promotores, no Ministério Público, comprometida com o combate à corrupção como raramente se encontra no Brasil, mas o quadro apresentado por um dos promotores, o Dr. Fernando Krebs, retrata as circunstâncias que mantém o Estado como aquele que reúne a maior dívida entre todos os Estados brasileiros: “Temos um Judiciário que, quando muito, resolve conflitos particulares, privados, mas quando entra o particular e o Poder Público, ou o Ministério Público em defesa da sociedade e do outro lado o governante, o poder Judiciário acaba se retraindo, se acovardando, se omitindo, deixando de cumprir sua obrigação e seu dever, sob os mais variados argumentos doutrinários jurisprudenciais. Acaba desta maneira, estimulando a ilegalidade, o abuso de poder e até mesmo o crime. O que a gente vê é muita corrupção no Poder Público, poucos agentes públicos são presos e, quando são, logo são postos em liberdade. Há muitos juízes e desembargadores sendo investigados em Goiás, mas todas as ações passam pelo judiciário, e acabam emperrando por aí”, conclui o promotor.

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