Marconi Grampeado

As gravações da Operação Voto da Polícia Federal, que embasaram a denúncia do procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, contra o senador Marconi Perillo (PSDB-GO) por tráfico de influência, mostram o parlamentar falando também com seu padrinho de batismo, Marcos Laveran, que é casado com a desembargadora Beatriz Figueiredo, do Tribunal de Justiça de Goiás.

De acordo com as revelações da revista “Época”, antes de passar o telefone para a desembargadora, o padrinho ouviu uma prévia do pedido. Segundo a publicação, Laveran trabalhou como funcionário do gabinete da mulher até a resolução que pôs fim ao nepotismo nas repartições do Judiciário. Na transcrição, o nome dele foi reproduzido pelos agentes federais como Laverã.

“DR. MARCOS LAVERÃ: Tá na mão de quem?

MARCONI: Tá na mão aí.

DR MARCOS LAVERÃ: Oi?

MARCONI: Ta na mão, ta na sua mão aí. Ta nas mãos da desembargadora.

DR MARCOS LAVERÃ: Tá bom.

MARCONI: Você quer anotar o número?

DR MARCOS LAVERÃ: Quero, você quer falar direto com ela ou não?

MARCONI: Ela ta aí perto do Sr?

DR MARCOS LAVERÃ: Tá.

MARCONI: Não eu prefiro… aé, eu falo com ela então. (parece estar meio contrariado)

DR MARCOS LAVERÃ: Não, você que manda.

MARCONI: Não, é porque eu não queria… bom, tudo bem eu falo.

DR MARCOS LAVERÃ: Sabe o que que é?

MARCONI: Ahhh.

DR MARCOS LAVERÃ: Porque hoje não deve ter nada, por que ela vai viajar daqui a pouquinho.

MARCONI: Foi distribuído hoje uma liminar para ela.

DR MARCOS LAVERÃ: Não, então tem que conversar com ela aqui mesmo.

MARCONI: Deixa eu falar com ela então.

DR MARCOS LAVERÃ: Por que ela vai viajar daqui a pouco.

MARCONI: Ela vai para onde chefe?

DR MARCOS LAVERÃ: Ela vai pra Aparecida.

MARCONI: Ah então tá bom.

(…) conversa sem interesse para investigação

DR MARCOS LAVERÃ: Eu acho que é melhor conversar com ela agora, porque aí qualquer coisa que precisar ela passa pra mim, eu to aqui junto, aqui”.

A revista “Época” explica que a ação rescisória que motivou o pedido de Perillo à desembargadora faz parte de uma guerra judicial travada por mais de 40 municípios goianos, entre eles a capital Goiânia, contra a Prefeitura de Itumbiara. A questão gira em torno do rateio da parcela do ICMS, distribuído pelo estado aos municípios. As outras cidades queriam reverter uma decisão anterior, do próprio Tribunal de Justiça, que havia aumentado o valor da parcela destinada a Itumbiara.

O pedido de Perillo foi atendido prontamente. Passaram-se menos de 48 horas entre a ligação do senador e o despacho da magistrada. Em 28 de dezembro, antes de entrar de férias, ela negou a liminar. A denúncia de Antonio Fernando será analisada pelo ministro do STF Ricardo Lewandowski.

“Época” afirma que a conduta da desembargadora Beatriz Figueiredo também está sob análise do Ministério Público, que examina a possibilidade de pedir o afastamento imediato da magistrada. Procuradores também pretendem processá-la em Brasília perante o Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

Marconi Perillo não foi localizado para falar sobre o caso. Seu advogado, Antonio Carlos “Kakay” Almeida Castro, disse que o senador está em viagem à África. Castro afirmou que não há na conversa nada que caracterize tráfico de influência. “O senador não fez nada errado. Trata-se de um pedido legítimo feito por um homem público”.

A revista também procurou a desembargadora Beatriz Figueiredo. Na quarta-feira, uma funcionária do gabinete informou que ela atenderia no dia seguinte. Nesta quinta-feira, porém, a mesma funcionária afirmou que magistrada não poderia atender “nem hoje nem amanhã”. Marcos Laveran não foi localizado. Perillo nomeou Beatriz Figueiredo como desembargadora no ano 2000, em vaga destinada a membros do Ministério Público.

A explicação para o empenho de Perillo em defesa dos interesses do município de Itumbiara, de acordo com a apuração de “Época”, está nas disputas políticas de Goiás:

“Na mesma semana em que telefonou para a desembargadora, Perillo estava terminando de negociar uma aliança com o prefeito da cidade, José Gomes da Rocha. À época, Gomes era filiado ao PMDB, partido de alguns dos maiores rivais do senador tucano em Goiás. Perillo estava empenhado em levá-lo para um dos partidos que compunham seu arco de alianças. Em troca, conforme registraram os jornais locais à época, chegou a prometer ao prefeito a vaga de vice caso venha a concorrer novamente ao governo goiano em 2010″, afirma a reportagem.

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